Entrevista com Professores: Professora Maria Cecília Pereira

Não é novidade que a área das engenharias é majoritariamente formada por homens. As mulheres são minoria no setor e diversas vezes se sentem desmotivadas para atuar nessas carreiras. Pensando nisso, a AEROJR. fez uma entrevista com a professora Maria Cecília Pereira de Faria, membra do Departamento de Engenharia Mecânica da UFMG. Ela é uma das poucas mulheres do departamento e nos contou um pouco sobre como é ser mulher em um ambiente masculino.

AEROJR.: Bom dia! A primeira pergunta não é bem uma pergunta, mas nós gostaríamos que você nos falasse um pouco sobre a sua trajetória acadêmica.

Maria Cecília: Bom dia! Bom, eu sempre soube que eu era de exatas, percebi muito cedo. Então, já bem nova, pensei em fazer colégio técnico. Fiz eletrônica aqui na UFMG e não me identifiquei. Na época, não havia engenharia à noite na UFMG, então eu pensava que teria que trabalhar durante o dia para pagar engenharia em uma universidade particular. Quando fui fazer vestibular, eu estava com um intercâmbio marcado e meio que me dei ao luxo de não escolher o que eu iria fazer. Acabei passando para Bacharelado em Física. Mas na UFMG, por exemplo, era preciso fazer dois semestres antes de poder trancar e, como em 6 meses eu iria viajar, achava que eu não iria poder me matricular mesmo. Mas eu passei na UFV, em que só era preciso fazer um semestre antes de trancar. Então eu me matriculei na UFV, fiz um semestre de Física e eu achei bem legal. Quando eu voltei do intercâmbio, pensei “Ah, deixa eu ver mais um semestre desse curso, deixa eu ver mais um semestre desse curso” e ai eu formei!

O curso de Física foi muito interessante. Eu achava que era um curso “bitolado” quando eu entrei, mas não é. Gostei muito, tive professores muito inspiradores – não tive nenhuma professora, só professores. Hoje em dia lá tem professoras, no Departamento de Física. Eu já sabia que eu queria fazer pós-graduação. Atirei pra todo lado, pegou em todos (risos) e eu fui pra essa área espacial, que sempre foi minha paixão.

Professora Maria Cecília durante a AEROCB II. Fonte: AEROCB.
Professora Maria Cecília durante a AEROCB II. Fonte: AEROCB.

Fiz mestrado e doutorado no INPE. As coisas foram acontecendo muito naturalmente. Junto com o mestrado, como eu fui aprovada em primeiro lugar, uma empresa me ofereceu uma bolsa que era bem maior que a bolsa de mestrado da época. São contatos que eu tenho até hoje, contatos para os quais eu consigo indicar alunos para a empresa, então foi muito importante na minha vida. Fui fazer doutorado e surgiu a oportunidade de fazer parte dele em Portugal com uma das maiores autoridades na área. Foi tudo muito natural, eu ganhei tudo na mão…, mas eu soube aproveitar as oportunidades que eu ganhei na mão… Cada oportunidade eu vi como única.

Acabou que eu passei bem nova para o concurso (na UFMG). Passei no concurso com 30 e assumi com 31. E ai, eu vi que por mais que eu seja apaixonada pela área de espaço, essa paixão é equivalente à minha paixão por educação. Muitas vezes eu vejo que as pessoas me enxergam como aquela mulher que “arregou” pra humanas, sabe? Não! Eu continuo sendo de exatas, continuo gostando de fazer conta, continuo gostando de programar, mas essa questão da educação, essa questão da inspiração, eu vi a diferença que esses professores fizeram na minha vida, então hoje eu tento deixar pelo menos meio a meio. No começo, eu dediquei bem mais à educação, porque o curso estava bem no comecinho e demandava muito da gente como educador. Hoje em dia a demanda do curso já é mais pesquisa, porque ele já foi aprovado no MEC, muitos desafios já foram cumpridos. Então, eu assumo esses papéis, e se alguém fala comigo que “Ah porque você”, eu digo “Por que o que? Você acha satélite mais importante que educação? Por que pra mim…”, eu diria até que educação é mais, mas eu gosto muito de satélite (risos). Então minha trajetória foi essa, ela foi muito suave, mas porque eu tive oportunidade e eu soube aproveitá-las. Fiz tudo seguido do outro, entrei na faculdade muito nova, então foi, ao contrário de muitas carreiras que eu vejo por aí, um caminho muito suave.


“Eu percebi muito cedo que aquilo que eu gostava era uma área dominada por homens e eu via aquilo como uma coisa natural .”

AEROJR.: Você mencionou que, durante seu curso de Física, você não teve professoras, mas durante o pós, durante o INPE, você teve?

Maria Cecília: Não, não…

AEROJR.: E como você se sentiu com isso? Você percebeu a ausência ou era algo com o qual você estava acostumada?

Maria Cecília: Não, eu não reparava nisso. Na verdade, eu tive professora na faculdade de Psicologia da Educação, mas da Física e mesmo da Matemática, que tinham algumas, eu não tive. Eu percebi muito cedo que aquilo que eu gostava era uma área dominada por homens e eu via aquilo como uma coisa natural. A gente não vai ver meio-a-meio nas áreas de exatas, da mesma forma que nas humanas também não, porque existe essa tendência vocacional: mais homens gostarem de exatas e mais mulheres gostarem de humanas. Isso não quer dizer que não existem mulheres que gostam de exatas e homens que gostam de humanas. O que, em minha opinião, a gente tem que fazer é: se mulher gosta de exatas, ela tem que ter essa possibilidade, e se o homem gosta de humanas, ele tem que ter essa possibilidade. Não adianta a gente viver nessa utopia de achar que um dia vai ser igual. Se você olhar os inscritos, vai ter muito mais homem do que mulher. Pra mim, se a proporção de mulher inscrita e mulher aprovada estiver equivalente, tá bom!

Mas eu não senti essa dificuldade de ver que eu não tinha professoras, principalmente porque houve uma postura muito respeitosa dos meus professores, sabe? Os meus professores de graduação são exemplo pra mim. Eu não senti falta de ter essa mulher, mas eu ouvi gracinhas que homens não ouvem, eu passei coisas que homens não passam, mas eu nunca dei mais importância pra isso do que tinha. A questão de gênero é algo muito interessante, porque se você se apega muito a ela, o resto fica de lado, e o resto não pode ficar de lado!

Teve uma AEROCB em que a gente chamou mulheres da engenharia aeroespacial pra mesa redonda e veio a Maria Regina, que foi a primeira aluna a se formar em engenharia aeronáutica aqui e se aposentou recentemente na Embraer. As engenheiras que estavam lá estavam todas falando de vitórias, de dificuldades e um aluno levantou a mão e perguntou pra Maria Regina sobre uma antena que ela tinha colocado numa aeronave. Uma menina enfurecida falou pra ele que ele estava roubando o diálogo. Não! Ele não estava roubando o diálogo. Ela foi a engenheira que projetou aquela antena que é diferente das antenas que geralmente tem. Eu não quero que você venha aqui pra me contar só sobre os preconceitos que você sentiu ou as vitórias que você teve. Eu quero que você me diga qual é a daquela antena, porque foi você quem fez! Não existe ninguém melhor no mundo pra me explicar sobre aquela antena do que você, Maria Regina.

Então, eu acho que as questões de gênero devem ocupar um espaço de debate, mas a gente não pode esquecer dos outros. A gente tem que mostrar pras pessoas que a gente é capaz. Se você começa a se envolver só com a questão de gênero, isso gasta tempo, gasta energia, e ai você não vai ter tempo de mostrar a engenheira que você se tornou. Então, a gente tem que saber dosar isso, a gente tem que saber não comprar brigas que não vão levar a lugar nenhum, porque no fim das contas, a única coisa que me ajudou na minha carreira foi o tanto que eu estudei e o tanto que eu trabalhei. Nenhuma das brigas que eu encampei me ajudou a chegar aonde eu cheguei.

Mas, por exemplo, uma vez eu arrumei uma briga aqui nessa escola sobre a questão da progressão da carreira. Era o seguinte, você tinha que, a cada dois anos, comprovar tanto, senão você não progredia. Mas e a mulher que está de licença maternidade? Ela vai ter que fazer, em um ano e meio, o que um homem faz, em dois? Aí eu arrumei uma briga, procurei diretor, e o que todo mundo entendeu foi que eu estava planejando engravidar! Mas eu não quero ter filho… Então começaram a me perguntar porque eu tinha arranjado toda essa situação, se eu não queria ser mãe. Isso não é uma coisa que interessa a mim, nem que interessa às mulheres, é uma coisa que interessa à sociedade. Isso não é algo pra ser legal com as mulheres, é algo pra ser legal com a sociedade, porque a sociedade tem que ser justa. Então, até as brigas que a gente compra, elas têm que valer a pena.

Eu não compro briguinha de gênero. As brigas grandes eu compro. O resto do tempo, eu estou trabalhando, porque é trabalhando que a gente vai mostrar que essa diferença só existe na cabeça das pessoas. Eu acho essa discussão de gênero muito legal, mas eu tomo muito cuidado, pra ela não tirar do meu rumo, talvez porque eu não tenha sido tanto vítima dela.

Professora Maria Cecília em entrevista para TV UFMG durante a AEROCB III. Fonte: AEROCB.
Professora Maria Cecília em entrevista para TV UFMG durante a AEROCB III. Fonte: AEROCB.

Eu tenho uma amiga, por exemplo, que queria fazer engenharia, mas foi proibida pela família. Ela é três anos mais velha do que eu e é fotógrafa, porque “mulher não é engenheira”. Ela é uma excelente fotógrafa, mas ela sempre fala que queria ser engenheira. Então, quais brigas nós vamos comprar? A briga da educação, a briga de mostrar pra sociedade, ou aquela briga do colega que faz piadinha machista? Deixa aquele colega pra lá! Aquele colega irrita porque a gente sabe que a piadinha está refletindo uma coisa que está na sociedade e te prejudica, mas aonde você vai por sua energia?

Uma vez, um colega aqui começou a receber um monte de apito no celular, e ai outro colega brincou, perguntando o que estava acontecendo. Ele respondeu que ele tinha emprestado o cartão pra filha dele e era o banco avisando que o cartão estava sendo usado. Aí ele falou assim “Mulher adora gastar dinheiro, né?”. Eu falei “Eu adoro! O meu! É pra isso que eu trabalho muito”. Na piadinha dele, estava subentendido que mulher adora gastar dinheiro, do marido. Outra vez, fazendo compra no supermercado, um cara passando com compra na minha frente, a caixa virou pra ele e falou “A mulher faz a lista e o homem compra, né?”. Aí eu respondi pra ela “Engraçado, porque na minha família a mulher faz a lista, a mulher faz a compra e a mulher paga”. Então assim, vale a pena essas situações em que você não vai gastar tempo.

AEROJR.: Tiveram momentos em que você falou das dificuldades e das brigas. Se você fosse destacar algum momento da sua trajetória em que você sentiu que você tinha uma barreira maior que as outras, qual foi a atitude que você tomou pra conseguir superar essa situação?

Maria Cecília: Eu, quando eu era mais nova, eu era muito mais brava do que eu sou hoje. O tempo já me amansou um pouco. Quando eu estava no mestrado, eu tive um problema grande com o meu orientador e eu botei a boca no mundo. Eu xingava esse homem inteiro, então a minha atitude, quando eu passei por esse tipo de situação, foi de agressividade. Mas eu tinha 22 anos. Hoje eu sei que esse não é o caminho. Essa pessoa podia ter me prejudicado mais do que ela me prejudicou. Então, eu explico minha reação com imaturidade. Depois que eu fui ficando mais madura, a minha reação quando eu encontro dificuldades que eu percebo que são minhas, porque eu sou mulher, e não por outro motivo qualquer, é mostrar meu trabalho.

Falando assim, parece que eu sou aquela pessoa que nunca perde as estribeiras, né? Vocês já repararam que na sala de quase todos os professores tem uma plaquinha com o nome do professor? Aqui na minha tem, Professora Doutora Maria Cecília. Sempre bate gente na minha porta e pergunta se eu sou a secretária, sempre! Ai tem dia que o pessoal vira e fala assim “ Você que é a secretária da Mecânica?”, e eu falo “Não…”. Isso acontece muito comigo, com os meus colegas homens, nunca aconteceu. Nós temos secretários, mais do que secretárias. A secretaria é formada por homens, e mesmo assim eles batem na minha porta e perguntam se eu sou a secretária. Então, tem dia que eu estou virada e falo “Olha aí na minha porta e me responde você se eu sou a secretária.”. Geralmente, a pessoa fica sem graça e saí. Mas teve um que me perguntou “Você já pensou em fazer terapia?”. Eu virei pra ele e respondi “Eu faço terapia pra aguentar gente como você”. Você o imagina falando assim com um homem? Mas eu vou me abater por causa disso?

Se eu for gastar energia nisso, não sobra energia pra eu trabalhar. Você tem que escolher suas batalhas. Você já escolheu sua guerra, ali dentro você precisa escolher suas batalhas, senão você dissipa energia.


“Ela (minha mãe) me criou pra ser o que eu quisesse, inclusive dona de casa. Pra ela, o que importava, é que eu tivesse condições de ser o que eu quisesse. “

AEROJR.: Pra fazer essa entrevista, nós tentamos entrar em contato com as mulheres do corpo docente da Aeroespacial. Entretanto, só conseguimos falar com você e com a professora Gilva. Como você se sente, ou como você abordaria essa questão de só ter vocês duas como professoras no curso?

Maria Cecília: Bom, até essa semana, eu era 25% do corpo docente feminino do DEMEC (Departamento de Mecânica). Essa semana eu virei 20%, porque chegou mais uma! Como eu falei, eu acho isso normal. Nos sempre fomos minoria e não é do dia pra noite que nós vamos virar maioria. Eu achar normal não quer dizer que eu ache bom. Agora, quando eu fiz o meu concurso, nós éramos 8 candidatos, eu, mais uma menina e 6 homens. Tinha uma chance muito maior de um homem ser aprovado do que eu, afinal, eles era mais, né? Então, eu encontrei nesse departamento, desde o concurso, muito respeito. Eu me sinto muito bem-vinda no curso de Engenharia Aeroespacial.

Quando eu dou os meus chiliques na Câmara, quando eu dou os meus chiliques no colegiado, os meus colegas ouvem, porque eu tenho um histórico de trabalho sério. Mas eu só pude mostrar o meu histórico de trabalho sério, porque os meus colegas que estavam na banca, e eram 5 homens, não viram problema de uma professora na engenharia mecânica. Então, se eu te falasse que eu sinto algum tipo de preconceito por ser minoria no departamento, eu estaria sendo muito injusta com os meus colegas. Aqui, eu encontrei um ambiente de muito respeito, e tem muita mulher que fica brava quando eu falo isso. Mas nós temos que dar valor para aqueles homens que nos respeitam. Nós temos que enxergar e valorizar que eles não são aqueles ogros que acham que a gente é pior. Então, tanto os meus colegas mais velhos e quase aposentados, eles sempre me trataram como uma igual.

No meu concurso, eu não vi nenhum tipo de preconceito de gênero, e conhecendo meus colegas, eu não acredito que em outros tenha. Eu acredito que isso é devido a terem poucas mulheres na área, porque em muitos concursos só se inscrevem homens. Eu acho que é o caso de a gente mostrar para as meninas que elas podem ser engenheiras, para daqui a 20 anos elas estarem aqui. Eu acho que esse processo deva começar com as menininhas. A gente não tem que pegar aquela menina que sempre gostou de letras e jogar ela no ICEx. A gente tem que mostrar para aquelas que já gostam de matemática e ciências que elas podem ser engenheiras e astronautas.

Eu contei pra minha priminha que, se ela quiser, ela pode ser engenheira que faz avião, e ela “Hã! Posso?”. E ela é criada em um ambiente de cabeça aberta, mas ela nunca tinha pensado nessa possibilidade. Mostrem pras meninas o que elas podem ser, pra elas não virarem a minha amiga, que é uma fotógrafa maravilhosa, mas que sempre quis ser engenheira.

AEROJR.: Isso acabou respondendo a próxima pergunta, sobre as mulheres na ciência e como incentiva-las a entrar.

Maria Cecília: A professora Luciana, da eletrônica, tem um projeto maravilhoso que é de meninas na ciência. Ela vai às escolas, levando alunos, mas muitas alunas, mostrando pras meninas que elas podem ser engenheiras. Esse projeto é maravilhoso e é voltado pra meninas mesmo. Ano passado eu pensei em submeter um projeto voltado pra meninas também, mas eu não tive tempo de escrever. Mas pretendo submeter um projeto voltado pras meninas do colégio até à graduação.

A gente tem que incentivar, eu não acho que a gente deva impor que a mulher ocupe esses espaços, sabe? A minha mãe, embora não assuma, é extremamente feminista. Ela me criou pra ser o que eu quisesse, inclusive dona de casa. Pra ela, o que importava, é que eu tivesse condições de ser o que eu quisesse. Eu sou a única de exatas lá de casa então o meu caminho foi bem diferente dos demais.

AEROJR.: Pra finalizar, você, sabendo que é uma inspiração pra muitas alunas da aeroespacial, e de outros cursos também, como você vê essa responsabilidade e você tem alguma mensagem de inspiração pra passar pra elas?

Maria Cecília: Olha, eu nunca tinha parado pra pensar nisso, até me chamarem pra um debate que teve aqui, da GE, e eu fiquei pensando em como tinham me achado. Foi um aluno da Engenharia de Sistemas que me indicou. E aí eu comecei a pensar um pouco sobre isso. O caminho da gente, que está na Academia, é muito levado por vocação. O nosso retorno material não é proporcional ao investimento que a gente faz. Então a gente em muito daqueles momentos de “Meu Deus, será que eu estou no caminho certo?”. Então, pra mim, sempre que eu me deparo com esse tipo de situação, é uma surpresa.

Por exemplo, tem uma aluna nossa fazendo estágio na AEB. Ela volta agora no início das aulas. Um amigo meu interagiu com ela lá e ele disse que ela se inspirava em mim. Eu achei super legal, mas não sei se eu me vejo assim, porque, como eu tenho acesso a todas as minhas falhas, eu penso que seu eu sou role model de alguém, essas pessoas estão muito mal de role model (risos).

Mas parando pra pensar, eu acho que eu consegui fazer alguma coisa consistente, eu acho que eu consigo fazer alguma coisa que passe uma imagem boa, sabe? Eu fico super feliz quando, por exemplo, na última AEROCB, eu liguei pra uma pessoa que eu conheço em busca de patrocínio. Ela disse que a cota de patrocínio dela tinha acabado, mas que ela ia arrumar dinheiro pra mim porque meu trabalho era sério.

O que acontece é que nós mulheres temos que ter muito cuidado com o nosso papel de inspiração, porque de nós é cobrado, além de uma postura profissional, um papel social, diferente dos homens. Será, que se eu resolver sair de casa amanhã, me acabar nos bloquinhos [de carnaval], sair bêbada por aí, vomitar na rua, o patrocinador vai me liberar verba? Mas o homem pode fazer isso tudo, porque o papel social dele não interfere no profissional. Não adianta achar que isso é injustiça, pra amanhã isso mudar.

Eu tenho que cuidar muito da minha imagem pessoal, e isso inclui passar por coisas que um homem nem imagina. Tenho que cuidar pra que o meu lado profissional tenha o valor que eu construí pra ele. As minhas conquistas serão sempre fonte de “Será que ela tem um caso com alguém?”. As dos meus colegas não. É uma coisa muito injusta, mas que existe. Cada um decide a forma como vai lidar com isso.

Agora, é muito legal quando você consegue colocar um homem no papel de uma mulher. Você já viu o choque que eles tomam? Outro dia um amigo meu disse que deu uma palestra de duas horas sobre o setor espacial para adolescentes. Uma menina levantou a mão na frente de todo mundo e disse “Você é muito gato. Por que você não foi modelar?”. Foi a única vez que ele sentiu na pele o que uma mulher sente.

De duas, uma: ou vocês compram a briga e não vão ter tempo pra outras coisas, o que é válido, ou vocês assumem a postura de mostrar o seu valor e pontuar a questão de gênero em algumas questões.

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