A AEROJR. buscou realizar mais uma entrevista com professores! Desta vez realizamos a entrevista com a professora Gilva Altair Rossi de Jesus, membra do Departamento de Engenharia Mecânica da UFMG. Ela é uma das poucas mulheres do departamento e nos contou sobre sua trajetória, seus projetos, sua carreira e sua atuação como profissional na área da educação.
Percurso e Carreira
AEROJR.: Bom dia! Para iniciar a entrevista, queríamos saber um pouco mais sobre a sua trajetória acadêmica.
Gilva: Bom dia! Eu fiz graduação aqui na UFMG, me formei em 1986 em
engenharia elétrica. Fiz mestrado com o Prof. Ronaldo Pena, que já foi reitor da UFMG. Terminei o mestrado em 1989 e, por coincidência, ao terminar o mestrado surgiu uma vaga no Departamento de Engenharia Mecânica (DEMEC). Eu defendi meu mestrado em outubro, o concurso foi em novembro. Eu passei no DEMEC (Departamento de Engenharia Mecânica), e a vaga era justamente para instrumentação e controle. Eu era bem nova, tinha 26 anos. [Naquela época] Era mais fácil de entrar na universidade, não era exigido o doutorado. Já tinham alguns concursos para doutores, mas a maior parte dos concursos era para mestres. Na época o curso era de engenharia mecânica com ênfase em aeronáutica, na época, mas a gente já tinha um curso muito forte na área de aeronáutica. Os alunos saiam com habilitação em aeronáutica. Desde aquela época, já formavam entre 10 e 15 alunos por semestre. Depois de um tempo, eu saí para fazer um doutorado. Fui para Santa Catarina e terminei o doutorado em 1999. Desde então, estou aqui. Quando eucheguei, criaram um curso noturno de engenharia mecânica, e logo em seguida criaram o curso de engenharia aeroespacial. Desde então, estou dando aula para os alunos do curso. Quando eu cheguei, estavam tentando estruturar melhor essa parte de controle e automação. Foi montado um laboratório para dar essa introdução pra vocês e eu participei disso.
AEROJR.: Poderia falar um pouco mais sobre suas áreas de atuação e projetos desenvolvidos ao longo da carreira?
Gilva: A minha principal atuação tem sido no desenvolvimento de sistemas automatizados. Para isso, é necessário conhecimento na área de eletrônica, automação, controle, programação e aquisição de sinais.
AEROJR.: Entre todos os projetos que participou, qual deles foi o mais impactante para você e qual o motivo?
Gilva: Um dos trabalhos desenvolvidos na área, e que considero muito didático, pois envolve todas as áreas citadas acima, é um sistema automatizado de coleta de dados de medidas de pressão sonora. Além da montagem do sistema eletromecânico, foi desenvolvido um sistema supervisório onde o usuário cria uma malha bidimensional e comanda o início do procedimento de medição. O sistema irá comandar o posicionamento do sensor em cada ponto da malha, fará a medição em cada ponto e armazenará os dados para futura análise. O sistema apresenta alternativas de comando remoto, visualização de resposta em tempo real, tanto no domínio do tempo quanto da frequência, e armazenando dados para posterior análise computadorizada.

AEROJR.: E você sempre sentiu que tinha essa vocação para a área de exatas ou foi uma coisa que você foi descobrindo?
Gilva: Não, eu sempre desconfiei. Eu acho que eu tive essa convicção mesmo já na graduação. A gente percebe ter essa curiosidade quando se depara com um cálculo, um desafio matemático. Eu acho que na graduação eu já sentia. Mas no mestrado e no doutorado, quando você percebe que a sua curiosidade aumenta ao descobrir problemas e resolver problemas e não tem aquele desânimo quando você vê aquele emaranhado de equações. Eu acho que tem que ter uma vocação, porque senão você desiste. Logo na graduação, eu já tinha certa facilidade, mas no mestrado, doutorado… Meu mestrado foi modelagem matemática, então eu lidava com um punhado de equações. Já no mestrado, doutorado eu percebi essa vocação. Agora, o interessante foi quando eu percebi a vocação para ficar na universidade. Quando eu estava no inicio do mestrado, fui convidada para participar de um grupo de consultoria. E ai eu tive um contato com empresa e percebi que o ambiente de empresa [para mim] não era muito legal, não gostei muito. Foi aí que eu falei: “eu vou ficar na pesquisa”. E aí surgiu a oportunidade. Eu dei 6 meses de aula na Pontifícia Universidade Católica, não sei se foi uma boa opção, eu fui pra uma área que não era minha. Eu fui para testar, pensando: “vamos ver como é que é”. Mas acho que quando eu percebi que na universidade tinha essa liberdade… Porque na universidade tem essa liberdade. Você pode pesquisar, você pode trabalhar com administração, além de dar aula, diversifica bastante a sua atuação. Isso também é bem interessante.
AEROJR.: O que mais te motivou ao longo da sua trajetória a continuar seguindo o caminho que você seguiu?
Gilva: A primeira coisa que me vem à cabeça é “o ambiente da universidade é bom”. No todo, acho que quando você pensa em trabalhar no campus, tem essa dinâmica de muita gente jovem. Os alunos vêm, a gente vê os alunos chegando novinhos e de repente eles já estão mais amadurecidos e vão embora. Isso é muito bom, é interessante. O fato de você propor um projeto, por exemplo, é uma dificuldade, é um desafio e é bom. Eu posso… podia né, agora eu estou há muito tempo na carreira, mas há uns 15 anos, eu poderia propor: “agora eu quero pesquisa na área de educação para engenharia”, e eu poderia encaminhar a minha carreira para aquilo, dentro do que é útil dentro da universidade. E isso é muito bom, te incentiva a continuar porque você tem vários caminhos. E depende muito de você. “Eu vou propor isso, eu vou pegar essa área. Sento e escrevo um projeto, vou buscar financiamento e acabar conseguindo algo”. Persistindo a gente sempre conseguiu alguma coisa. Às vezes, ficamos meio frustrados, mas se não conseguir nada também faz parte. Não se consegue tudo, mas a gente sempre consegue alguma coisa. Acho que o que mais me motivou aqui dentro foi isso. Você pode direcionar sua carreira.
Experiência e Vivência Educacional
AEROJR.: No curso de Engenharia Aeroespacial, nós temos somente você e a professora Maria Cecilia como professoras alocadas fixamente no nosso curso. Como você se sente diante a isso, dentro do corpo docente tem somente duas mulheres?
Gilva: Isso sempre foi assim. É aquela história, desde a minha
graduação. É sempre assim. Nós sempre somos a minoria. Até que ultimamente, na turma de vocês, tem crescido, tendo 20% da turma sendo mulheres. Na engenharia elétrica, eram 10%, e sempre se manteve 10%. O número de professoras no departamento também é em torno de 10%. Entra uma professora, sai outra, e essa porcentagem se mantém. As mulheres, quando entram, fazem um bom serviço, elas têm competência. Eu era a única mulher quando fiz o concurso, Cecília também, acho que era a única mulher. Para nós, esse preconceito, essa coisa de ser mulher não pesa tanto quando a seleção é por concurso. Entra pouca mulher, então são poucas mulheres que também vão ter em contato com vocês [os alunos], quase nenhuma. Isso não é bom, seria bom se tivesse mais. Mas a disputa não é fácil. Naturalmente, vão ter mais homens do que mulheres, então a mulher para vencer ela tem que ser bem melhor.
AEROJR.: No seu papel como educadora dentro do curso de engenharia aeroespacial, você sente alguma responsabilidade de passar a engenharia pra outras pessoas para moldar o futuro delas?
Gilva: Sim! A engenharia pode moldar o futuro sim, de uma forma ampla. Eu acho que a graduação pode mudar o futuro porque muitas vezes essa engenharia é só um passo inicial pra pessoa. Não significa que “fez engenharia vai ter que ser engenheira”. Não! Eu acho que é importante isso. Passar a questão da ética, da seriedade, de você levar as coisas na medida certa. Não sou a favor do professor que acha que tem que tornar o curso um peso pro aluno, pra ele achar que a vida é assim, é difícil. Tem que ser bom na medida certa, com responsabilidade para passar aquele conteúdo. Eu não gosto de passar muito peso, tento passar na medida certa. Não é questão de não ser capaz porque não tem inteligência, talvez aquilo não te interesse e acaba sendo muito difícil pra você. Se você exagerar no peso, todo mundo vai achar que não gosta daquilo. Eu tive esse problema na minha graduação. Eu gostava demais de umas matérias, o professor era brilhante, mas ele me fez sentir burra. Então eu desisti da matéria. Até hoje eu penso assim: “eu gostava tanto e desisti por causa do professor”. Eu fiz todas as obrigatórias e as optativas eram com ele e aquilo foi muito difícil pra mim. Então, hoje, eu tento pensar em passar as coisas na medida certa, pensando que aquilo é uma introdução pro aluno. Depois, se ele quiser aquilo, ele amadurece o conteúdo, pois o que se aprende mesmo é mais individual. Então, a gente tem que dar o básico e dar um espaço pro aluno desenvolver isso e usar no futuro. Não é pra massacrar o aluno que sair daqui acabado e talvez nem queira mais engenharia. É aprender mesmo a desenvolver raciocínio. Muitas coisas você nem vai usar no seu dia a dia, mas você está ali trabalhando, pensando nas coisas, vendo tudo que funciona. Engenharia é isso, aprender como as coisas funcionam, se comportam e talvez aplicar até em outras áreas. A graduação fica. Eu fiz engenharia elétrica e estou na mecânica há anos, mas eu tenho muito da minha graduação na minha cabeça. A graduação é muito forte e eu acho que ela prepara para a vida sim. Tem que tomar cuidado com isso. “Só porque a minha graduação é isso eu tenho que seguir isso”. Não. Abre a sua mente, você pode seguir outros caminhos.
AEROJR.: E em especial com as alunas, você sente alguma responsabilidade?
Gilva: Talvez seja um pouco de egoísmo, talvez inocência da minha parte, mas eu nunca percebi a diferença. Eu tive um episódio de preconceito que eu só descobri anos depois. Eu fui selecionada para uma vaga e, como meu nome é Gilva, a pessoa achou que fosse Gilvan, que é nome de homem. Quando ele entrou em contato e viu que era mulher, ele arrumou uma desculpa e me ligou falando “ah, houve um problema”. E eu acreditei. Depois de anos eu vi e pensei: “Gente, ele não me aceitou porque eu sou mulher”. Mas nunca tratei as mulheres [de uma maneira] diferente. Muito pelo contrário, gosto de mulher que se impõe, conversa do mesmo jeito [que os homens]. Nunca diferenciei nada. Eu acho que as mulheres são muito resolvidas nos cursos. Nunca percebi nenhuma mulher muito com problema por causa disso. Eu não sei se é porque eu nunca tive essa vivência.
AEROJR.: Para finalizar, se você pudesse dar uma dica pras alunas do curso, qual seria essa dica?
Gilva: Estudar de forma mais independente. Eu reconheço que o nosso curso está ultrapassado. Vocês [alunas] ainda vão pegar esse estudo de sala de aula, professor falando e aluno participando muito pouco. Mas eu acho que os alunos têm que começar, como futuros profissionais, a serem independentes mesmo, usarem ferramentas da internet para buscar informações e serem autodidatas. Eu acho que, futuramente, os filhos de vocês não vão ter esse padrão de aula em que um fala e os outros ficam ouvindo. Futuramente, o padrão será reuniões em grupos e desenvolvimento de projetos. É legal os alunos participarem desses grupos, como alguns daqui [iniciativas]. Você aprende muito mesmo, a participação que é importante. Vale a pena você empregar todo o tempo livre para participar dos grupos.
Ótimo site!
Parabéns!!!
Desejo-lhes sucesso.
Parabéns pelo trabalho!
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